O impossível é só questão de opinião

Todos os créditos da foto utilizada são da Federação Paulista de Futebol.
Desde que esse que vos escreve acompanha o Esporte Clube Primavera, o maior sonho foi ver o Fantasma no lugar mais alto do campeonato. Toda vez em que eram divulgadas as tabelas com jogos e tinham o nome do Primavera, sempre sonhei em ver o clube erguendo o troféu de campeão ao final do certame. Infelizmente, por conta de alguma falha que custou a classificação, erros grotescos de arbitragem, problemas internos, ou qualquer outra interferência que adiaram esse sonho durante anos.
Desde o seu último título conquistado, em 2001, o Primavera viveu em uma montanha-russa sem fim. Subiu para a Série A3 em 2003 e na temporada seguinte chegou perto de subir a Série A2, infelizmente sendo eliminado na fase final. A partir daí, começou uma era instável no Gigante da Vila Industrial. Após campanhas fracas em 2005 e 2006, o Primavera sentiu o gosto do rebaixamento em 2007, voltando a disputar a Segunda Divisão. Parecia o fundo do poço, entretanto, o pesadelo só estava começando.
Apontado como favorito no ano de 2008 por conta do apoio da Racing Santander, parecia que a bezinha seria algo passageiro. Porém, o que vimos foi a pior temporada na era profissional (desde que foi reativado em 1976), contando com resultados vexatórios como 6 a 1 para o Campinas FC, 5 a 2 para a Saltense, e o vergonhoso 8 a 0 para o Red Bull dentro do Gigante da Vila, a maior goleada já sofrida pelo clube em sua história. O ano de 2009 prosseguiu o sofrimento primaverino, voltando a ser eliminado na 1ª fase da bezinha com campanha horrível.
A partir de 2010, começaram as tentativas para sair da Segunda Divisão. Com um ótimo time, o Fantasma da Ituana chegou até a fase final, mas não conseguiu obter o acesso. Em 2011, o empate sofrido dentro do Gigante da Vila para o Cotia custou a classificação no campeonato, sendo eliminado ainda na 1ª fase do campeonato paulista. Em 2012, jogando o campeonato todo com portões fechados, o Primavera voltou a fazer feio dentro de casa, perdendo de virada para o Guariba, em jogo que custou a classificação para a 3ª fase no campeonato. O ano de 2013, o time começou devagar, porém foi crescendo aos poucos, derrubando outros favoritos, e passando a ser visto pelos concorrentes. Infelizmente, um empate doloroso em casa para o Tupã eliminou o Tricolor Indaiatubano da fase final do campeonato.
O ano de 2014 já seria o sétimo em que o Fantasma da Ituana amargava a Segunda Divisão, e o desespero para sair da divisão começava a apertar. Sendo apontado favorito desde o começo, o Primavera fez grande campanha nas 3 primeiras fases, chegando na fase final com moral. Porém, o medo de ficar pelo caminho voltou a aparecer. O penúltimo jogo, na capital paulista, contra o Nacional, foi uma pressão tremenda, mas conseguimos resistir e trazer 1 ponto de volta. A última rodada parecia ser fácil, enfrentando o já eliminado Grêmio Prudente, dentro de casa. A expectativa era de goleada e festa. Contudo, aquela manhã ensolarada de 19 de outubro de 2014 aconteceu de tudo. Quase uma derrota de W.O no começo devido a ausência do médico, que demorou 25 minutos para aparecer no estádio. A partida foi dramática do começo ao fim, com o time nervoso, não conseguindo encaixar um ataque firme, enquanto o Prudente se segurava totalmente atrás. Até que aos 50 do 2° tempo, Aldinho, o predestinado, saiu do banco de reservas para fazer o gol de misericórdia. Era a volta primaverina a Série A3 depois de 7 anos de calvário e sofrimento na última divisão paulista.
Essa alegria quase foi ampliada em 2015, com a ótima campanha na Série A3, e a classificação para a fase final do campeonato, mas que infelizmente o time ficou no quase mais uma vez, prolongando o sonho de ver o Primavera disputar a Série A2 do Campeonato Paulista. Assim como nada é perfeito, 2016 o Fantasma sofreu outro doloroso rebaixamento a Segunda Divisão. Parecia que todo aquele calvário de 7 anos iria se repetir novamente.
O ano de seu nonagenário encerrou de forma amarga. Derrota em casa para o Taquaritinga, uma vez em que o Primavera precisava apenas de um empate para a classificação ao mata-mata do campeonato. O filme dos últimos anos voltava a mente do torcedor primaverino. Mas 2018 seria diferente.
Celebrado os 40 anos de seu título mais importante, conquistado em 1977, o Primavera começou a competição desacreditado por todo mundo. Em um campeonato com 40 clubes, entre eles tradicionais como Comercial, XV de Jaú, São José, Francana, Paulista, equipes fortes como Inter de Bebedouro, Guarulhos, Itapirense, Talentos 10, e apenas 2 vagas de acesso para a Série A3 do ano seguinte, era inimaginável ver o Primavera conquistando o acesso, quanto mais o título do campeonato.
O início foi preocupante, com 2 empates e 1 derrota logo de cara. Mas desde então, vimos uma equipe crescendo, tomando forma, batendo de frente com todos, e assim foi a 1ª e 2ª fase inteiras, com o Primavera avançando em silêncio. A partir da 3ª fase, começa um filme que iria marcar a temporada de 2018. A estreia foi dolorida, com uma derrota por 3 a 0, em Jundiaí, para o Paulista. Todos pensavam que seria o fim do Primavera na competição, mas não contavam com a reação que viria a seguir. Uma vitória contra o Itararé que embolou a situação do grupo 10. A seguir, 2 confrontos tensos com a Inter de Bebedouro. Em Indaiatuba, um empate em 2 a 2 salvo pelo goleiro Filipe, que defendeu um pênalti no final do jogo, evitando a derrota primaverina. Em Bebedouro, um empate sem gols manteve o Tricolor sonhando com a classificação, mas agora eram necessárias 2 vitórias para ir as semifinais da competição. Em Itararé, uma vitória por 3 a 1 trouxe a decisão para Indaiatuba, contra o mesmo Paulista, que havia nos derrotado com boa vantagem, na estreia da 3ª fase. Em um jogo nervoso, conseguimos a vitória por 2 a 1, com direito a mais uma defesa de pênalti do goleiro Filipe, eliminando o tradicional Galo do Japí.
Eram semifinais, faltavam apenas 2 jogos para conquistar o acesso, e o adversário seria o mesmo da fase anterior: a Inter de Bebedouro. O primeiro jogo seria em Indaiatuba e a decisão final fora de casa. Porém, sem sofrimentos, o acesso veio de forma expressiva: 2 vitórias por 2 a 0, e o acesso de volta a Série A3 apenas 2 anos depois. Agora era a final, hora de coroar a bela campanha até aqui. E o adversário seria nada mais e nada menos que o Comercial de Ribeirão Preto, dono da melhor campanha da competição, e apontado por muitos como o virtual campeão da competição. Assim como em todo o ano, em nenhum momento o Primavera foi apontado como favorito, nem para acesso muito menos para título.
O primeiro jogo foi em Indaiatuba, e o resultado desfavorecendo o Tricolor: 0 a 0, o que agradava o Comercial, que jogava por 2 empates para erguer o caneco. O jogo da volta foi no Palma Travassos, que recebeu grande público, todos ensandecidos para gritar “é campeão”. E o começo de jogo ajudou a fomentar ainda mais, com um gol de pênalti de Matheus China. A partir daí, o Primavera precisou ir para o tudo ou nada, pois só a vitória traria o título de campeão para Indaiatuba. Foi pênalti não dado para o Fantasma, chute de fora da área, bola aérea, rebote do goleiro, cobrança de falta sem sucesso. O jogo prosseguiu dessa forma. Aos 30 do 2° tempo, era possível ver os torcedores alvinegros já soltando o grito de campeão e se aproximando do alambrado para ver a entrega dos troféus. Contudo, o que aconteceu a seguir nem mesmo o mais pessimista comercialino estaria prevendo.
Já eram 47 minutos do 2° tempo, o Primavera precisava fazer o impossível: marcar 2 gols em 3 minutos para ser campeão. E os deuses do futebol resolveram agir em nosso favor. Em cobrança de falta de Carlos Guilherme, o goleiro Geílson não segurou a bola, e Gabriel Caran empurrou para o fundo das redes. Faltava apenas 1 gol, e restavam 2 minutos. A torcida no estádio já começava a ficar apreensiva com uma possível perca de título, enquanto os primaverinos não acreditavam no que estava por acontecer. Em seguida, nova cobrança de falta, dessa vez, Juninho mandou a bola para a área, e o predestinado foi o zagueiro Felipe, que entrou no 2° tempo, e empurrou a bola para o fundo das redes. Era a virada primaverina nos acréscimos. Ninguém estava acreditando no que via. Os comercialinos olhavam um para o outro sem entender o que estava acontecendo, enquanto os primaverinos já caíam no chão e choravam sem também compreender no que estavam presenciando.
Enfim, aos 50 do 2° tempo, o juíz levantou os braços para o alto. Fim de jogo. Primavera campeão da Segunda Divisão de 2018. Era o título primaverino depois de longos 17 anos de altos e baixos. Ninguém acreditava no que estava acontecendo no Estádio Palma Travassos. A torcida alvinegra se retirando do estádio inconformada, enquanto os tricolores pulavam, choravam, gritavam, não sabiam o que se passava, mas a sensação era muito boa. Era o grito que faltava ao Fantasma da Ituana. Uma geração presenciou o Primavera sendo campeão paulista. O quarto título na história primaverina veio de forma inesperada, dramática, e marcante. Parecia que o acesso de 2014 já era o suficiente, porém 4 anos depois ninguém esperava por esse momento. É campeão!
O Esporte Clube Primavera, caminha rumo ao seu centenário, e o desejo de ver o clube na Série A1 ainda segue na mente dos indaiatubanos. Infelizmente, por más administrações ou falhas dentro de campo esse sonho sempre foi adiado. Se nesse intervalo tivemos muitas decepções, frustrações, esse clube também nos ensinou o que era de verdade torcer pelo futebol raíz. O futebol caipira segue vivo. Esse título o Primavera deu de presente para todos, pois quando você pensar que não consegue alguma coisa ou que o clube não é capaz de alcançar tal feito, esse time provou que o impossível é só questão de opinião.
Ainda sem cair a ficha sobre o que aconteceu no último sábado, espero que não caia tão cedo, apenas quero deixar fluir essa sensação maravilhosa de ser campeão. Assim como 1977, 1995, 2001, agora 2018 vemos mais uma estrela bordada na camisa e um troféu para olhar, se orgulhar e sempre acreditar enquanto ninguém guarda mais esperanças.
É CAMPEÃO!

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